O que a maioria dos triatletas ignora (mas não devia): porque é que os treinos fáceis te tornam mais rápido

Paula Veloso
by Paula Veloso
Há 1 semana

Depois de mais de uma década a treinar e competir em triatlo — desde sprints locais até provas longas — há uma lição que demorei anos a aprender, e que ainda vejo muitos atletas a ignorar:

Os treinos fáceis não são opcionais. São essenciais.

Num desporto construído sobre disciplina, resiliência e a busca constante por evolução, é muito comum cair no erro de achar que “treinar mais forte” significa “treinar melhor”.
A verdade? A fisiologia não funciona assim — e o progresso a longo prazo também não.

Hoje quero partilhar uma perspectiva que mudou por completo a forma como treino e que, sinceramente, teria gostado de ter percebido muito mais cedo.

1. O maior erro: treinar sempre na “zona cinzenta”

A maior parte dos triatletas amadores passa demasiado tempo numa intensidade que não é fácil… mas também não é realmente dura. É a chamada zona cinzenta.

Parece produtivo — acabas suado, cansado e com a sensação de que fizeste um bom treino — mas esse é, na verdade, o esforço menos eficaz quando usado em excesso.

Porquê?

Porque:

  • É demasiado intenso para permitir recuperação real
  • É pouco intenso para desenvolver potência, velocidade ou limiar

Resultado: estagnação, fadiga e aquela sensação frustrante de “treino tanto e não vejo evolução”.

2. Treinos fáceis… constroem velocidade

Treinos de baixa intensidade aumentam:

  • Eficiência aeróbia
  • Capacidade de usar gordura como combustível
  • Densidade mitocondrial
  • Capacidade de recuperação

Isto é a base de qualquer desporto de endurance.
Sem esta fundação, os treinos duros deixam de ter impacto e ficas preso sempre ao mesmo nível.

Os atletas de elite sabem-no bem:
Quando olhas para a distribuição de treinos de um triatleta profissional, há sempre algo que surpreende:

80–90% do treino semanal é muito lento.

Se os melhores do mundo reduzem a velocidade… porque é que tantos amadores têm dificuldade em fazer o mesmo?

3. O desconforto psicológico de “treinar devagar”

Um dos maiores bloqueios não é físico — é mental.
Muitos atletas não gostam de ver ritmos lentos no relógio.

Custa admitir, mas é verdade:
o ego atrapalha mais treinos do que as pernas.

Mas o corpo não quer saber do teu ritmo por quilómetro.
Quer saber de estímulos, recuperação e adaptação.

Treinar devagar não te torna lento.
Treinar devagar dá-te permissão para competir rápido.

4. A verdadeira magia: consistência

A maior vantagem de abraçar treinos fáceis é simples:

Deixas de andar no limite. Deixas de quebrar. Ganhas consistência.

E consistência vence tudo:

  • vence talento,
  • vence motivação ocasional,
  • vence planos de treino perfeitos que nunca consegues cumprir.

O atleta que treina de forma inteligente — não apenas de forma dura — é o atleta que chega à partida confiante, saudável e rápido.

5. Como aplicar isto a partir de hoje

Aqui fica um guia prático para qualquer triatleta:

✔️ Mantém a maioria dos treinos na Zona 2

Devias conseguir falar enquanto treinas.

✔️ Se é para treinar forte, treina mesmo forte

Sessões de limiar, VO2 ou ritmo de prova devem ser planeadas, específicas e intensas.

✔️ Respeita a recuperação

Dormir, comer bem e gerir stress contam tanto como os treinos.

✔️ Deixa o ego em casa

Ritmo lento em treino não te define — mas ajuda a definir a tua performance em prova.

Triatlo é disciplina, mas também é autoconsciência.
Se queres longevidade, melhores tempos e uma relação mais equilibrada com o desporto, lembra-te disto:

Não ficas mais rápido por treinar sempre no limite.
Ficas mais rápido por saber quando não o fazer.

E a beleza desta abordagem?
Funciona para iniciantes, experientes e todos os que estão no meio.

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