
O que a maioria dos triatletas ignora (mas não devia): porque é que os treinos fáceis te tornam mais rápido
Depois de mais de uma década a treinar e competir em triatlo — desde sprints locais até provas longas — há uma lição que demorei anos a aprender, e que ainda vejo muitos atletas a ignorar:
Os treinos fáceis não são opcionais. São essenciais.
Num desporto construído sobre disciplina, resiliência e a busca constante por evolução, é muito comum cair no erro de achar que “treinar mais forte” significa “treinar melhor”.
A verdade? A fisiologia não funciona assim — e o progresso a longo prazo também não.
Hoje quero partilhar uma perspectiva que mudou por completo a forma como treino e que, sinceramente, teria gostado de ter percebido muito mais cedo.
1. O maior erro: treinar sempre na “zona cinzenta”
A maior parte dos triatletas amadores passa demasiado tempo numa intensidade que não é fácil… mas também não é realmente dura. É a chamada zona cinzenta.
Parece produtivo — acabas suado, cansado e com a sensação de que fizeste um bom treino — mas esse é, na verdade, o esforço menos eficaz quando usado em excesso.
Porquê?
Porque:
- É demasiado intenso para permitir recuperação real
- É pouco intenso para desenvolver potência, velocidade ou limiar
Resultado: estagnação, fadiga e aquela sensação frustrante de “treino tanto e não vejo evolução”.
2. Treinos fáceis… constroem velocidade
Treinos de baixa intensidade aumentam:
- Eficiência aeróbia
- Capacidade de usar gordura como combustível
- Densidade mitocondrial
- Capacidade de recuperação
Isto é a base de qualquer desporto de endurance.
Sem esta fundação, os treinos duros deixam de ter impacto e ficas preso sempre ao mesmo nível.
Os atletas de elite sabem-no bem:
Quando olhas para a distribuição de treinos de um triatleta profissional, há sempre algo que surpreende:
80–90% do treino semanal é muito lento.
Se os melhores do mundo reduzem a velocidade… porque é que tantos amadores têm dificuldade em fazer o mesmo?
3. O desconforto psicológico de “treinar devagar”
Um dos maiores bloqueios não é físico — é mental.
Muitos atletas não gostam de ver ritmos lentos no relógio.
Custa admitir, mas é verdade:
o ego atrapalha mais treinos do que as pernas.
Mas o corpo não quer saber do teu ritmo por quilómetro.
Quer saber de estímulos, recuperação e adaptação.
Treinar devagar não te torna lento.
Treinar devagar dá-te permissão para competir rápido.
4. A verdadeira magia: consistência
A maior vantagem de abraçar treinos fáceis é simples:
Deixas de andar no limite. Deixas de quebrar. Ganhas consistência.
E consistência vence tudo:
- vence talento,
- vence motivação ocasional,
- vence planos de treino perfeitos que nunca consegues cumprir.
O atleta que treina de forma inteligente — não apenas de forma dura — é o atleta que chega à partida confiante, saudável e rápido.
5. Como aplicar isto a partir de hoje
Aqui fica um guia prático para qualquer triatleta:
✔️ Mantém a maioria dos treinos na Zona 2
Devias conseguir falar enquanto treinas.
✔️ Se é para treinar forte, treina mesmo forte
Sessões de limiar, VO2 ou ritmo de prova devem ser planeadas, específicas e intensas.
✔️ Respeita a recuperação
Dormir, comer bem e gerir stress contam tanto como os treinos.
✔️ Deixa o ego em casa
Ritmo lento em treino não te define — mas ajuda a definir a tua performance em prova.
Triatlo é disciplina, mas também é autoconsciência.
Se queres longevidade, melhores tempos e uma relação mais equilibrada com o desporto, lembra-te disto:
Não ficas mais rápido por treinar sempre no limite.
Ficas mais rápido por saber quando não o fazer.
E a beleza desta abordagem?
Funciona para iniciantes, experientes e todos os que estão no meio.